Mariana Viegas

Fotografia Photography
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Usa a fotografia - enquanto documento do real - na sua relação com o texto e o tempo - propondo a construção de narrativas que se revelam esculturas socias e/ou monumentos pessoais.

Uses photography - as a reality documental display - creating links between text and time, building narratives of social constellations and/or personal monuments.


Entrada

Em colaboração com
Galeria Casa A. Molder e Adriana Molder

2023

Exposição individual na Casa A. Molder na Baixa, desenhada para o espaço da Galeria e que tem como base o arquivo.

Entrada

In colaboration with
Galeria Casa A. Molder and Adriana Molder

2023

Solo exhibition at Casa A. Molder in Baixa, designed for the Gallery space and based on the archive.  




ENTRADA é o título da exposição que foi pensada e criada para este espaço.
Mariana Viegas tem um arquivo considerável de fotografias que foram tiradas, pensadas e criadas em momentos e anos diferentes. É deste enorme corpo de trabalho que surgem os dois conjuntos de fotografias que compõem esta exposição.
Entrada simboliza uma passagem de um mundo para outro. Nas palavras da artista: “Entrar é a condição necessária para iniciar um caminho, guiado pela curiosidade da experiência em si e onde um corpo se entrega a um espaço.”
Entrada é também uma iniciação. E, neste caso, uma herança. Das fotografias de escavações arqueológicas, íntimas e livres, do pai da artista, ficou o amor às imagens, à fotografia, também ao caminho, ao mistério, à terra escavada e ao segredo da escala.
Não se pode dizer que estas imagens, divididas claramente em dois grupos, queiram ser objectos arqueológicos ou representem algum tipo de arquivo, mas aqui existe também uma vontade de categorizar certos atributos daquilo que foi fotografado. Encontramos o amor ao caminho, à persistência, à fragilidade e ao mistério que é a vida: onde nos leva, onde nos pode levar e também a serenidade estranha que pode ser o fim abrupto da mesma. Falo das imagens: da fotografia do caracol e do seu rastro sobre aquilo que nos parece um caminho quase dourado, da mão que segura uma semente dum cardo Mariano, ou leiteiro, uma planta tão generosa como distinta. Falo do buraco escuro na vegetação, naquilo que pode ser o princípio ou o fim dum caminho, também apenas uma possibilidade e um mistério. Todas estas imagens são a cor: a única fotografia a preto e branco é a do suicida, já tapado com um pano. Uma imagem poderosa e estranhamente serena, como se o calor da tarde e o sol que nos mostra o recorte das inúmeras janelas fossem convidativos – a vida continua. Há ainda uma pequena cilada: entre estas fotografias de Mariana Viegas encontramos uma única que não é sua, mas sim do seu pai, em que umas mãos (as da mãe da artista) seguram um objecto de vidro.
Do forte simbolismo que encontramos neste primeiro conjunto de fotografias (obras de vários anos entre 1990 e 2022), avançamos para o outro, fotografias que Mariana Viegas tirou no início dos anos noventa. Objectos reais, concretos, que parecem ser do dia-a-dia, são-nos apresentados sobre um mesmo fundo de falso mármore. Entre eles, uma lâmina de abrir envelopes, um pisa-papéis de barro, uma caixa de tabaco, um alfinete onde se lê “Não me beijes”, uma fotografia manchada por mercurocromo.
São dois mundos diversos, mas não opostos. De um lado, temos presenças, ligações e símbolos que, embora absolutamente terrestres, nos levam através da
 luz, da cor e da sombra, a qualquer coisa que poderíamos chamar etérea. Do outro, a vontade de categorizar com precisão a matéria, de uma maneira em que poderíamos supor que houvesse ligações ou até uma narrativa, mas não há, e é isso que torna este conjunto tão surpreendente, como se a artista encontrasse na continuação, neste ritmo de mostrar, nesta rotina, uma maravilha.

Entremos então.

Adriana Molder 
Entrada [Entrance] is the title of this exhibition, which was specifically conceived and created for this space.
Mariana Viegas owns a sizable archive of photographs that were taken, conceived and created in various moments and years. Out of this huge body of work come the two sets of photographs that compose this exhibition.
Entrance symbolises a passage from one world to another. The artist tells us: “To enter is the necessary condition to start a path, guided by the curiosity of the experience itself, where a body gives itself to a space.”
Entrance is also an initiation. And, in this case, a legacy. The photographs of archaeological diggings, personal and unrestricted, taken by the artist’s father, have given her a love of images and photography, but also of paths, mystery, excavated earth and the secret of scale.
It cannot be said that these images, clearly divided into two groups, are meant to be archaeological objects or represent some sort of archive; however, they do convey a desire to categorise certain features of the photographed subject. In them, we find a love for the path, persistence, fragility and the mystery that is life: where it leads us, where it may lead us and also the strange serenity its abrupt end can generate. I speak of the images: the photograph of a snail and its trail on what seems to be an almost golden path, of a hand that holds a Marian thistle, also known as a milk thistle, a very prolific and distinctive plant. I speak of the dark hole in the vegetation, something that might be the beginning or end of a path, as well as simply a possibility and a mystery. All these pictures are in colour: the sole black and white photo is the one of the suicide victim, already covered with a piece of cloth. A powerful and strangely serene image, as though the warmth of the afternoon and the sun that reveals to us the outlines of countless windows were telling us: life goes on. There is also a little trap: among these photographs by Mariana Viegas we find a single one with a different provenance: taken by her father, in it a pair of hands (her mother’s) hold a glass object.
From this powerfully symbolic first set of photos (works from various years, between 1990 and 2022), we move to the next one, featuring pictures taken by Mariana Viegas during the early 1990s. Real, concrete, seemingly everyday objects are presented to us, against the same background of imitation marble. Among them are a letter-opener, a clay paperweight, a tobacco box, a breastpin bearing the words “Não me beijes” [Don’t kiss me] and a mercurochrome-stained photograph.
Two different, but not opposite worlds. On one, we find presences, connections and symbols that, though thoroughly earthbound, lead us, by means of light, colour and shadow, to something we might define as ethereal. On the other, a desire to categorise materials with precision, in such a way that it might lead us to imagine the existence of connections or a narrative, but such is not the case, and that is why this set is so surprising, as if the artist had found a source of wonder in this continuation, this cadence of showing, this routine.

Let us enter, then.

Adriana Molder